Programa da sessão “Quilombos e maroons das Americas”

 No quadro do XXXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DE AMERICANÍSTICA

Sexta-feira, o 6 de Maio, às 8.30 da manhã

Sala del Consiglio Comunale, Palazzo dei Priori, Corso Vannucci 19 – Perugia, Itália

Sessão “Quilombos e maroons das Américas: espelho das diferenças”

Véronique Boyer (Centre National de la Recherche Scientifique, France)
apresenta Os antropólogos e os quilombolas: discursos eruditos, intervenções práticas, interpretações locais

Charles Beatty-Medina (Department of History, University of Toledo, United States)
apresnta Africans in Native Garb, the legacy of marronage in the early Spanish Americas

Eliane Cantarino O’Dwyer (Departamento de Antropologia, Universidade Federal Fluminense, Brasil)
apresenta Profetismos e práticas de cura: saber tradicional dos remanescentes de quilombo de Oriximiná-PA

Aderval Costa Filho (Departamento de Antropologia e Arqueologia, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil)
apresenta Quilombos no Brasil: processos identitários, territoriais, políticas de desenvolvimento e proteção/ omissão do Estado

Mary Kenny (Eastern Connecticut State University, United States)
apresenta Identity, place and minor narratives: quilombolas in the sertão of northeast Brazil

Programa completo do Congresso aqui.

Questões interessantes da sessão Quilombos e maroons das Américas

A sessão Quilombos e maroons das Américas: espelho das diferenças, realizada no XXXVII Congresso Internacional de Americanística foi muito interessante. As contribuições dos panelists foram bem diferenciadas e se completaram. Elas coloram em luz diferentes aspectos do assunto, com diferentes enfoques e métodos.

Resumo aqui algumas das questões mais interessantes que se manifestaram durante a sessão. Esses pontos são tirados das falas dos panelist, mas o que segue é uma minha reinterpretação pessoal. Portanto não expressa a opinião ou o ponto de vista dos panelist 1.

1) A atuação do Governo brasileiro com respeito à questão quilombola é insuficiente: o processo de reconhecimento é demais longo, muitos poucos quilombos receberam o titulo da terra do momento isso se tornou lei (três dos quatro paper foram sobre quilombos brasileiros; este ponto refere-se à realidade brasileira, enquanto os outros também aos quilombos dos outros países da América Latina) 2.

2) Os povos que se reconhecem como índio ou quilombola, ou um dos diferentes “povos tradicionais” não sentem de caber estritamente em uma dessas categorias (como definido pela lei e reforçado por alguns pesquisadores). De fato, historicamente e hoje em dia, acontece uma circulação entre estas diferentes categorias e muitas pessoas acham de pertencer a mais de uma dessas. Isso não significa que estas categorias são insignificantes ou forjadas, mas que seria útil, seja nas politicas que na pesquisa, ter em conta os limites permeáveis e o interlaçamento entre estes conjuntos.

3) O dialogo entre a pesquisa sobre quilombos históricos e contemporâneos pode iluminar ambos os campos. Isso não acontece na forma mais obvia, ou seja encontrar as raízes históricas dos quilombos contemporâneos, já que, na maioria das vezes, os rastros dos antigos quilombos foram deletados pela expulsão e as migrações. Pelo contrário, a relação entre os dois campos pode se concentrar na comparação: de fato, muitas questões relevantes para os quilombos históricos as são também para os contemporâneos; é o caso, por exemplo, da relação de conflito e inter-relação com os povos indígenas.

4) A relação entre quilombola e movimento negro é complexa. Boa parte dos quilombolas não se identificam com o movimento negro – ou o conhecem apenas; ao mesmo tempo o movimento negro, apesar de reconhecer os quilombolas as parte de uma raiz comum, não concorda com a “moderação” politica de muitos deles e a não identificação com alguns padrões culturais da tradição afro.

  1. Uma parte ou todos os paper apresentados serão publicados nos anais do Congresso.
  2. O novo governo, chefiado pelo presidente interino Michel Temer, será muito provavelmente pior neste respeito do que os anteriores. Por exemplo, os assuntos quilombolas são de responsabilidade do Ministério da Cultura, tendo menos relevância daquela garantida por ficar na responsabilidade do Instituto Nacional de Colonizaçao Agraria; o ministro da cultura é o José Mendonça Bezerra Filho, do partido DEM, tradicionalmente contrario ao reconhecimento das terras de quilombo. Além disso, o novo governo eliminou o Ministério das Mulheres, da Igualda racial e dos Direitos Humanos.

Convite a sessão “Quilombos e maroons da América” do Congresso Internacional de Americanística

Estão publicadas as sessões do Congresso Internacional de Americanística: entre elas, uma sobre quilombos, que apresentei. Em baixo uma breve apresentação. O Congresso, organizado pelo 38° ano pelo Circolo Amerindiano acontecerá em Perugia (Itália) entre o 3 e o 10 de maio deste ano.

As inscrições à sessão estão abertas, encerram o dia 20 de janeiro e podem ser feitas por este formulário.

Quilombos e maroons da América: o espelho das diferenças

A América inteira é hoje caraterizada pela presença de comunidades de afro-descendentes, que se destacam pela natureza coletiva e a relação com a sociedade ao entorno, que oscila entre isolamento e contraposição – nunca totais e nunca definitivas. Têm diferentes nomes, entre os quais: quilombo, palenque, mocambo, etc.

Estas comunidades se diferenciam bastante por motivos externos (por exemplo as formas nas quais a mão de obra escrava foi introduzida na região, as peculiaridades das sociedades nacionais nas quais elas se encontram, as características dos povos pré-colombianos) e internos (como as comunidades se formaram, as organização delas, etc.).

Algumas questão porém são transversais aos diferentes contextos e representam interessantes pontos de reflexão:
– a tensão que os quilombolas vivem entre inclusão na sociedade envolvente, por um lado, e a diferenciação desta, por outro;
– a relação e os laços entre quilombos no/do passado e os quilombos contemporâneos;
– a articulação entre autoafirmação dos quilombos, acesso aos recursos (especialmente a terra) e reparação;
– a relação entre cultura imaterial dos quilombos, a da sociedade envolvente e da sociedade nacional.

Nesta sessão são apresentados casos de estudo sobre quilombos nos países onde existem e são debatidas, entre outras, as questões acima mencionadas.

Mulher no quintal, comunidade de Cangume, Itaóca, Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil. Setembro de 2010 (c) Luca Fanelli/ ISA
Mulher no quintal, comunidade de Cangume, Itaóca, Vale do Ribeira, São Paulo, Brasil. Setembro de 2010 (c) Luca Fanelli/ ISA

Tarubá: o processo de produção

Tenho escrito em outro post sobre tarubá, uma bebida fermentada produzida com a mandioca. O post é este, mas infelizmente não consegui ainda traduzi-lo para o português.

Como se produz o tarubá? O processo é complicado e merece uma documentação. Apresento aqui como o produz Maria do Socorro Oliveira, da comunidade de Escrivão, margem esquerda do rio Tabajós, município de Aveiro, Pará, Brasil.

Maria explicou em detalhe o processo de produção e concordou em documentá-lo com imagens. As fotografias são do Adamor Cardoso.

Até onde eu sei, é a primeira documentação completa do processo de produção do tarubá.

Tentamos aprofundar também a questão da puçanga, um pó que é colocada a massa da mandioca, antes de descansar. Este pó é obtido torrando e esmiuçando as folhas de uma planta específica, que é a mesma usada para cobrir a massa para o descanso. O nome vulgar desta planta é curumim, mas não achamos fontes confiáveis que a identifique. Após avaliação, achamos que trata-se da Trema micrantha (L.) Blum.

Diagrama do processo de produção do tarubá

O processo de produção do tarubá

Documentação fotográfica completa do processo de produção do tarubá

Visita em Prainha para acompanhar as mudanças na produção de piracui

Pescador. Prainha 2015. Foto de Tamara Saré
Pescador. Prainha 2015. Foto de Tamara Saré

A partir de 2008 tentei encontrar caminhos para apoiar os produtores de piracui de Prainha (Pará, Brasil). No agosto deste ano estava na Amazônia e decidi de visitá-los. Tinha faltado do local desde 2010 e queria saber o que tinha mudado. Além disso, queria coletar algumas entrevistas video, para que os pescadores, em primeira pessoa, pudessem falar do trabalho deles, duro e delicado.

Na organização da visita me ajudou a amiga Ivonete que, junto comigo, é responsável do piracui na Arca do Gosto do Slow Food. Uma pequena equipe se juntou conosco: Revelino e Flodivaldo, da Colônia de Pescadores, a Tamara, fotografa e amiga e a Karen, que estuda na Universidade de Ciências Gastronómicas, e, por sinal, é minha filha.

Temos coletados muitas informações, e de ótima qualidade, assim como belas testenunhas, que vou tentar editar e colocar neste blog, ou em outro lugar.

Estava já com esta idéia, mas nesta visita foi confermada: é urgente que os pescadores producam menos piracui, com a mesma geração de renda. Isto significa que quem já produz um piracui de qualidade, vai continuar deste jeito; os outros, têm que aumentar a qualidade. E a qualidade tem que ser valorizada.

Esta mudança não é oportuna só para a qualidade de vida dos pescadores, mas tambem para o meio ambiente, já que a super-produção de piracui está ameaçando a fonte, ou seja o peixe acari 1.

O problema não é a procura: o piracui tem um mercado macro-regional (Santarém, Manaus, Belém, talvez Fortaleza): quase 10 toneladas de piracui deixam Prainha cada ano; qualquer um que já usou o piracui na cozinha, sabe que esta é uma quantidade muito muito grande.

Mas neste mercado não têm incentivos para quem produz com qualidade: quem produz um bom piracui geralmente recebe algo a mais do comprador local, mas o piracui dele é vendido para o consumidor junto com o de qualidade baixa. O consumidor local não pode escolher entre um piracui bom ou “ruím”, ou até não sabe que existe um piracui bom e um “ruím”.

Além disso, apesar do que tenha muita clareza entre os produtores a respeito dos processos que fazem um piracui ser de qualidae, permanecem também muitas dúvidas, principalmente a respeito da conservação. É também muito importante que a questão sanitária seja levantadas “de baixo para cima” e não imposta “de cima para baixo”. Hoje não tem nenhum controle sanitário; mas, cedo ou tarde, isso vai chegar e se a vigilancia sanitária é implementada sem levar em conta as especifidades locais, muitos produtores serão afetados – e talvez alguns entre os melhores. Tem no Brasil um debate muito interessante em relação à adaptação das regras sanitárias à pequena produção (cfr. esta notícia), mas tem ainda muito caminho para andar2.

Pode encontrar um relatório mais aprofundado sobre os resultados da visita aqui.

Espero de verdade que alguma organização (governamental ou não) possa se interessar no assunto e comprometer-se para apoiar o povo de Prainha para promover uma produção mais sustentável, que leve à melhora da qualidade de vida local.

Toda a equipe. De esquerda para direita: Revelino, Ivonete, Flodivaldo, Luca, Karen e Tamara. Rio Vira Sebo. Prainha, PA, Brasil. 2015 (c) Luca Fanelli
Toda a equipe. De esquerda para direita: Revelino, Ivonete, Flodivaldo, Luca, Karen e Tamara. Rio Vira Sebo. Prainha, PA, Brasil. 2015 (c) Luca Fanelli

  1. A diminuição do acari têm outras causas, mas a pesca ecessiva é uma das principais
  2. Também o documento da FAO e do WHO Guidance to governments on the application of HACCP in smalland/or less-developed food businesses aponta para este rumo.

Patrimonizalização de um sistema de produção agrícola

Na última semana de agosto aconteceu a VIII edição da Feira de Sementes do Vale do Ribeira, organizada pelo Instituto Socioambiental e parceiros em Eldorado (SP), Brasil. Já escrevi aqui em diversas ocasiões desta manifestação, à “fundação” da qual participei.

A patrimonialização do sistema de produção agricola dos quilombos foi assunto de uma das mesas redondas (cfr. http://bit.ly/1Kjf7fU); este processo é muito importante e interessante, visando a valorização de um sistema de produção que está em risco de extinção, quer por pressões externas (principalmente os impedimentos legais ao uso do fogo), quer internas.

Conservação do feijão para o plantio do ano seguinte. Comunidade de Cangume, município de Itaóca (SP), Brasil. Março de 2009. Foto de Luca Fanelli/ ISA
Conservação do feijão para o plantio do ano seguinte. Comunidade de Cangume, município de Itaóca (SP), Brasil. Março de 2009. Foto de Luca Fanelli/ ISA

É relevante que, dos 180 bens imateriais levantados no Inventário Cultural de Quilombos do Vale do Ribeira, o escolhido para avançar no processo de patrimonialização, seja o sistema de produção agrícola tradicional.

O sentido e os desafios da construção do inventário da cultura imaterial dos quilombos do Vale do Ribeira foram o assunto da minha apresentação no XXXVII Congresso Internacional de Americanística (Perugia, maio de 2015). Em baixo os eslaides (em italiano).

Sobreposição entre áreas protegidas e comunidades tradicionais gera conflito e aproxima Brasil e Angola

Jacinto Wacussanga e Toninho: longas caminhadas para chegar às casas da comunidade
Jacinto Wacussanga e Toninho: longas caminhadas para chegar às casas da comunidade

Representante de ONG angolana visita o quilombo de Bombas, no Vale do Ribeira (SP) e conversa com as lideranças locais sobre as semelhanças e diferenças dos problemas enfrentados por comunidades tradicionais de seu país na relação com as áreas protegidas. A comunidade de Bombas vive dentro de um parque, criado em sobreposição ao território quilombola. Da mesma forma, inúmeras comunidades pastoris, vivem no Parque do Bicuar, em Angola.

Leia a notícia na integra que foi publicada no site do Instituto Socioambiental.

A fotografia como fonte para a história agora on-line

Luca FANELLI, La fotografia come fonte storica, «I viaggi di Erodoto», v. 40, 1999.

Questo articolo si pone a chiusura di una serie di testi che affrontarono, non direttamente, ma con una grande ricchezza di spunti, la questione della fotografia come fonte storica, e in un certo modo anticipa un’altro gruppo di scritti, più maturi, che hanno tematizzato, discusso ed approfondito il tema.

Scarica l’articolo (.pdf/it/6,85Mb).

Testi citati nell’articolo.

Testi sul tema (alcuni testi citati nell’articolo, più altre opere, più recenti).

 

Luca FANELLI, La fotografia come fonte storica [Photography as a source for history], «I viaggi di Erodoto», v. 40, 1999.

This article closes a sequence of works that deal – not directly, but gathering a lot of clues – with the question of the photography as a source for history; as the same time, in some way it anticipates another later group of works, more mature, that debated and deepened the understanding of this issue.

Download the article (.pdf/it/6,85Mb).

Works cited in the article.

Works related to the issue (some works cited in the article, with some other newer works).

 
Luca FANELLI, La fotografia come fonte storica [A fotografia como fonte para a história], «I viaggi di Erodoto», v. 40, 1999.

Este artigo fecha uma fase, onde várias obras relacionaram-se à questão da fotografia como fonte para a história, não fazendo isso de forma direta, mas sim proporcionando um grande volume de idéias e sugestões; de alguma forma, ele antecede um outro grupo de trabalhos, mais maduros, que se confrontam com o assunto mais amplamente e mais profundamente.

Baixar o artigo (.pdf/it/6,85Mb).

Obras citadas no artigo.

Obras relacionadas ao tema (uma parte das obras citadas no artigo, com outros textos mais recentes).