Tarubá: o processo de produção

Tenho escrito em outro post sobre tarubá, uma bebida fermentada produzida com a mandioca. O post é este, mas infelizmente não consegui ainda traduzi-lo para o português.

Como se produz o tarubá? O processo é complicado e merece uma documentação. Apresento aqui como o produz Maria do Socorro Oliveira, da comunidade de Escrivão, margem esquerda do rio Tabajós, município de Aveiro, Pará, Brasil.

Maria explicou em detalhe o processo de produção e concordou em documentá-lo com imagens. As fotografias são do Adamor Cardoso.

Até onde eu sei, é a primeira documentação completa do processo de produção do tarubá.

Tentamos aprofundar também a questão da puçanga, um pó que é colocada a massa da mandioca, antes de descansar. Este pó é obtido torrando e esmiuçando as folhas de uma planta específica, que é a mesma usada para cobrir a massa para o descanso. O nome vulgar desta planta é curumim, mas não achamos fontes confiáveis que a identifique. Após avaliação, achamos que trata-se da Trema micrantha (L.) Blum.

Diagrama do processo de produção do tarubá

O processo de produção do tarubá

Documentação fotográfica completa do processo de produção do tarubá

Visita em Prainha para acompanhar as mudanças na produção de piracui

Pescador. Prainha 2015. Foto de Tamara Saré
Pescador. Prainha 2015. Foto de Tamara Saré

A partir de 2008 tentei encontrar caminhos para apoiar os produtores de piracui de Prainha (Pará, Brasil). No agosto deste ano estava na Amazônia e decidi de visitá-los. Tinha faltado do local desde 2010 e queria saber o que tinha mudado. Além disso, queria coletar algumas entrevistas video, para que os pescadores, em primeira pessoa, pudessem falar do trabalho deles, duro e delicado.

Na organização da visita me ajudou a amiga Ivonete que, junto comigo, é responsável do piracui na Arca do Gosto do Slow Food. Uma pequena equipe se juntou conosco: Revelino e Flodivaldo, da Colônia de Pescadores, a Tamara, fotografa e amiga e a Karen, que estuda na Universidade de Ciências Gastronómicas, e, por sinal, é minha filha.

Temos coletados muitas informações, e de ótima qualidade, assim como belas testenunhas, que vou tentar editar e colocar neste blog, ou em outro lugar.

Estava já com esta idéia, mas nesta visita foi confermada: é urgente que os pescadores producam menos piracui, com a mesma geração de renda. Isto significa que quem já produz um piracui de qualidade, vai continuar deste jeito; os outros, têm que aumentar a qualidade. E a qualidade tem que ser valorizada.

Esta mudança não é oportuna só para a qualidade de vida dos pescadores, mas tambem para o meio ambiente, já que a super-produção de piracui está ameaçando a fonte, ou seja o peixe acari 1.

O problema não é a procura: o piracui tem um mercado macro-regional (Santarém, Manaus, Belém, talvez Fortaleza): quase 10 toneladas de piracui deixam Prainha cada ano; qualquer um que já usou o piracui na cozinha, sabe que esta é uma quantidade muito muito grande.

Mas neste mercado não têm incentivos para quem produz com qualidade: quem produz um bom piracui geralmente recebe algo a mais do comprador local, mas o piracui dele é vendido para o consumidor junto com o de qualidade baixa. O consumidor local não pode escolher entre um piracui bom ou “ruím”, ou até não sabe que existe um piracui bom e um “ruím”.

Além disso, apesar do que tenha muita clareza entre os produtores a respeito dos processos que fazem um piracui ser de qualidae, permanecem também muitas dúvidas, principalmente a respeito da conservação. É também muito importante que a questão sanitária seja levantadas “de baixo para cima” e não imposta “de cima para baixo”. Hoje não tem nenhum controle sanitário; mas, cedo ou tarde, isso vai chegar e se a vigilancia sanitária é implementada sem levar em conta as especifidades locais, muitos produtores serão afetados – e talvez alguns entre os melhores. Tem no Brasil um debate muito interessante em relação à adaptação das regras sanitárias à pequena produção (cfr. esta notícia), mas tem ainda muito caminho para andar2.

Pode encontrar um relatório mais aprofundado sobre os resultados da visita aqui.

Espero de verdade que alguma organização (governamental ou não) possa se interessar no assunto e comprometer-se para apoiar o povo de Prainha para promover uma produção mais sustentável, que leve à melhora da qualidade de vida local.

Toda a equipe. De esquerda para direita: Revelino, Ivonete, Flodivaldo, Luca, Karen e Tamara. Rio Vira Sebo. Prainha, PA, Brasil. 2015 (c) Luca Fanelli
Toda a equipe. De esquerda para direita: Revelino, Ivonete, Flodivaldo, Luca, Karen e Tamara. Rio Vira Sebo. Prainha, PA, Brasil. 2015 (c) Luca Fanelli
  1. A diminuição do acari têm outras causas, mas a pesca ecessiva é uma das principais
  2. Também o documento da FAO e do WHO Guidance to governments on the application of HACCP in smalland/or less-developed food businesses aponta para este rumo.

Memória de Luzia Fati

Foto di Luca Fanelli/ MAIS. Nov. 2011
A orla de Santarém

Para recordar a bela pessoa da Luzia Fati, que faleceu no começo deste mês de março, reproduzo aqui integralmente uma maravilhosa entrevista, que tive a oportunidade de gravar em Abril de 2007, em Santarém (Pará).

Nesta entrevista, ela reconstrói a trajetória da sua vida e do movimento sindical da região Norte, juntando elementos históricos, uma pontual análise política, e comoventes lembranças pessoais.

A entrevista está dividida em 6 partes.

   I parte – Da infância a juventude, a formação política e pessoal, até chegar na direção do STTR de Santarém (21 min.).

II Parte – Da secretaria de formação do STTR até a direção nacional da CUT

III Parte – Na direção da CUT nacional (1° e 2° mandato), a volta a Santarém, a atuação no ISAM

IV – Ser dirigente sindical mulher, as oportunidades, a relação com a família

V – Histórico e atuação do STTR de Santarém, papel do sindicato, papel político e económico do sindicato, a questão de terra hoje

VI Parte – Ribeirinhos e planalto na história do sindicato, a articulação sindical na região, outros testemunhas, conclusões

Uma breve nota sobre a vida da Luzia pode ser encontrada aqui (site da CUT).

Pesquisa e ação para o desenvolvimento

ricercazioneDurante o XXX Congresso Internacional de Americanística, Perugia (Italia), 6-12 maio de 2008, na mesa redonda Amazônia. Estado da arte das pesquisas a campo, foi amplamente discutida a problemática da relação entre pesquisa, notadamente humanística, e mais precisamente antropológica, e projetos de desenvolvimento, de forma geral, mas sobretudo não governamentais.

Em resumo, foi colocada, por um lado, a interdependência, forte de um ponto de vista epistemológico, e necessária, de um ponto de vista prático, entre pesquisa e ação; por outro lado, a separação entre “atores da pesquisa” (universidades em primeiro lugar) e “atores do desenvolvimento” (ong em primeiro lugar) (permita-se o uso da palavra desenvolvimento, por causa da difusão dela, mesmo que o seu sentido precise ser problematizado).

Leia um relato do debate (em italiano).

A partir daí, procuramos ampliar este debate, envolvendo profissionais com experiência nesta área de limite, a partir destas perguntas orientadoras:

1.a) Você compartilha a opinião que, na prática, os atores da pesquisa e os atores do desenvolvimento agem de forma separada?

1.b) Ao que é devida esta separação?

1.c) Mais especificamente, esta separação é causada por diferentes olhares sobre o mundo, por práticas diferentes, ou por motivos institucionais (as instituições de pesquisa se formaram em âmbitos e tempos diferentes, do que as organizações não governamentais)?

2) Uma das questões que se põe, no bojo deste debate, é a relação entre equilíbrio e a mudança. Quanto mais avalia-se que uma sociedade ou um grupo está em equilíbrio (interno e/ou externo), quanto menos a atitude junto à este grupo é voltado à mudança, e vice-versa.
Os atores da pesquisa e os atores do desenvolvimento posicionam-se com respeito à esta díade (equilíbrio/ mudança) da mesma forma, ou de formas diferentes?

3) Têm um consenso a respeito da questão que sempre a pesquisa é ação (cada ato é político). Pode se afirmar o contrário, ou seja, que a ação é pesquisa? Se sim, quais exemplos têm a este respeito?

5) Qual é a experiência da relação entre pesquisa e ação na Sua organização?